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Conversas entre arte e ciência
18.06.2008 por admin

O painel com o artista Dimitre Lima e o biólogo Nelio Bizzo aponta algumas possibilidades de relações entre as diferentes linguagens artísticas e científicas, sob a perspectiva de processo. Muitos artistas dialogam com cientistas ou conceitos científicos na produção de suas obras. Há também a possibilidade de se acompanhar os processos de criação, tanto na ciência quanto na arte, a partir dos documentos dos processos, como rascunhos, maquetes, protótipos, esboços etc.

Este painel traz uma outra possibilidade de se pensar essas relações: a perspectiva da morfogênese ou da gênese das formas.

Dimitre que faz das formas que se transformam na matéria-prima de sua arte gerativa; Nelio que apresentou, em uma perspectiva histórica, como a biologia vem explicando as transformações das formas da natureza e o abalo do conceito de formas perfeitas a partir das pesquisas de Darwin; e Cecilia que se dedica à compreensão dos processos de criação da arte, da mídia e da ciência, como as formas se constróem.

Assim, os objetos artísticos são tirados de seus ambientes críticos restritos e dialogam com processos científicos, naturais ou sociais.


Para Dimitre Lima, que trabalha com arte gerativa, “o processo é que é a solução. O que é trabalhado é sempre o processo de geração”. Nos seus projetos artísticos Dimitre busca a criação de regras básicas de um processo, que é o que desencadeia as obras. O artista cria automatizações de produção de formas e regras para gerar possibilidades de outras configurações.

“As regras simples geram resultados complexos”, ele explica. Num processo de arte gerativa, há uma combinação matemática e depois uma semântica, para potencializar possibilidades de criação de formas. Não há configuração manual depois que o processo inicia, pois tudo ocorre cumulativamente dependo das regras criadas pelo artista.

No seu repertório para a criação de regras, Dimitre relata as seguintes possibilidades: recombinação, acaso, restrição, feedback e autômato celular. A partir dessas opções e da combinação entre elas, são criados procedimentos geradores. As formas criadas não são trabalhadas pelo artista, ele frisa. O artista explora e delimita padrões e parâmetros de processos, que são geradores de formas. “O artista joga a semente e o programa faz o resto”, completa Dimitre.

Nelio Bizzo é especialista em Darwinismo e Evolução. Para ele, há inúmeras correspondências entre a arte gerativa e o desenvolvimento de seres vivos, a começar pelas formas de criação: permuta, combinação e acaso.

Através da “metáfora do joalheiro cego”, Nelio explica que os seres vivos eram vistos como uma obra genial e perfeita do criador e que este não precisava nem enxergar, só por uma necessidade divina, criou todos os seres vivos.

Com as várias pesquisas realizadas, alguns paleontólogos começam a acreditar numa visão processual da criação e que esta seria um processo inacabado e bastante demorado, gerando seres vivos ainda precários e provisórios.

Nos manuscritos de Darwin, pode-se perceber, explica Nelio, que o pesquisador acreditava em regras básicas na gênese dos seres vivos, mas que havia uma indeterminação inicial, que é exatamente a impossibilidade de se encontrar a “origem” da criação.

“Não somos o que somos apenas por causa dos nossos genes”, diz Nelio. Ou seja, segundo o biólogo, não há genes capazes de estabelecer determinadas características dos seres vivos. Este é o mistério da “origem”: a impossibilidade de se determinar a primeira e mais original forma inicial, assim como também não se pode determinar a forma final. O processo de criação de seres vivos não pode ser controlado, sendo ao mesmo tempo imprevisível e inevitável.

Neste processo inacabado de desenvolvimento, Nelio diz que os organismos mudam para se adaptar ao meio ambiente, que não apresenta características sempre homogêneas. A evolução orgânica ocorre porque se dão mudanças ambientais, assim, alguns indivíduos resistem melhor às variações e se especializam adaptativamente. São esses gradientes de mudanças que explicam a diferenciação dos seres vivos e as descontinuidades nas espécies.

Para Cecília, arte e ciência estudam objetos em movimento, dos quais não se pode, por exemplo, estabelecer rigidamente uma origem. E mais, o processo de criação não resulta uma forma perfeita e é um processo inacabado, seja na arte, na ciência ou na natureza. De modo também semelhante, as redes de criação, responsáveis pela construção dessas formas aparentemente tão diversas, interagem de modo bastante intenso com o meio ambiente.

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