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Processo de criação como redes em construção


processo de criação

Percurso sensível e intelectual de construção de objetos artísticos, científicos e midiáticos que pode ser descrito, numa perspectiva semiótica, como movimento falível com tendências, sustentado pela lógica da incerteza, englobando a intervenção do acaso e abrindo espaço para a introdução de idéias novas. Um processo contínuo sem um ponto inicial, nem final. Um percurso de construção inserido no espaço e tempo da criação, que inevitavelmente afetam o artista.

recursos criativos

Os recursos ou procedimentos criativos são os modos como o artista lida com as propriedades das matérias-primas, ou seja, modos de transformação. Há uma potencialidade de exploração dada por elas e, ao mesmo tempo, há limites ou restrições que o artista pode se adequar ou burlar, dependendo do que ele pretende de sua obra. Toda ação sobre as matérias-primas gera seleções e tomadas de decisões.

Estamos no campo dos flashbacks, colagens, fragmentações, narrativas interpoladas, pincelada densa ou fina, câmera lenta, ausência de pontuação, jogos combinatórios, saturação de imagens, uso de processo randômico, etc. O artista tem as ferramentas como instrumentos mediadores que o auxiliam nessa manipulação.

rede

Pierre Musso define rede como uma estrutura de interconexão instável, composta de elementos em interação e cuja variabilidade obedece a alguma regra de funcionamento, eventualmente modelizável. A gênese de uma rede (de um elemento de uma rede) e sua transição de uma rede simples a outra mais complexa são consubstanciais a sua definição. A estrutura da rede inclui, portanto, sua dinâmica (MUSSO, Pierre. A filosofia da rede. Em Parente, A. (org.) Tramas da rede. Porto Alegre: Sulina, 2004).

redes culturais

O artista em criação está imerso e sobre-determinado por sua cultura que, em estado de efervescência, possibilita o encontro de brechas para a manifestação de desvios inovadores (Morin). Ele interage com seu entorno, alimentando-se e trocando informações. Sai, por vezes, em busca de diálogo com outras culturas. A obra, um sistema aberto em construção, age como detonadora de uma multiplicidade de interconexões.

redes em construção

A criação como rede pode ser descrita como um processo contínuo de interconexões instáveis, gerando nós de interação, cuja variabilidade obedece a alguns princípios direcionadores. Essas interconexões envolvem a relação do artista com seu espaço e seu tempo, questões relativas à memória, à percepção, recursos criativos, assim como, os diferentes modos como se organizam as tramas do pensamento em criação. O artista deixa rastros deste percurso nos diferentes documentos do processo criativo.

restrições

A criação realiza-se na tensão entre limite e liberdade. Limite dado por restrições internas ou externas à obra, que oferecem resistência à liberdade. Criar livremente não significa poder fazer qualquer coisa, a qualquer momento, em quaisquer circunstâncias e de qualquer maneira. O artista é um livre criador de restrições. Essas restrições revelam-se, muitas vezes, como propulsoras da criação. O artista é incitado a vencer os limites estabelecidos por ele mesmo ou por fatores externos, como a matéria-prima com a qual está lidando, data de entrega, orçamento ou delimitação de espaço. As tendências do processo, mesmo que de caráter geral e vago, são orientadoras desta liberdade ilimitada.

semiótica

Processo de criação como processo sígnico de acordo com a semiótica de Charles S. Peirce.

tempos da criação

A discussão do tempo da criação é sempre plural: há coexistência de diferentes tempos. A criação como processo implica continuidade, sem demarcações de origens e fins precisos. É o tempo contínuo da investigação. A continuidade enfrenta diferentes ritmos de trabalho e envolve esperas do artista pelo tempo da obra e da obra pelo tempo das avaliações do artista, que é potencialmente sem fim (inacabamento). As esperas remetem à simultaneidade: o tempo de maturação leva muitos artistas a trabalharem diversas obras ao mesmo tempo. A relação entre o que se tem e o que se quer é traduzida por tentativas de adequações, que levam o artista conviver uma grande diversidade de possibilidades de obras. Este tempo da hesitação e da dúvida leva a idas e vindas, fluxos e pausas. A continuidade defronta-se também com rupturas, como nas intervenções do acaso e nos bloqueios de criação. Há também os instantes privilegiados na continuidade, os momentos sensíveis das descobertas. O processo de criação, que está inserido em seu tempo histórico e em suas redes culturais, não pode ser desvinculado do tempo de autocriação do artista.

tendência

Tendências são rumos vagos que orientam o processo de construção das obras no ambiente de incerteza e imprecisão; geram trabalho em busca de algo que está por ser descoberto. O desenvolvimento do processo leva a determinadas tomadas de decisão que propiciam a formação de linhas de força que vão dando consistência aos objetos em construção. Ao longo do percurso vão sendo estipuladas restrições ou delimitações de naturezas diversas que tornam a construção da obra possível. As tendências dos processos podem ser observadas sob o ponto de vista dos princípios direcionadores ou projeto poético e do ato comunicativo.

transformação

As interconexões destacam o campo relacional, mas o ato criador dá-se na maneira como as relações são estabelecidas. Essa elaboração dá-se em um processo de transformação. A singularidade da construção encontra-se na unicidade da transformação: as combinações são singulares. A construção das realidades ficcionais dá-se em um processo de transformação que se revela nas relações entre percepção e memória e nos modo como os recursos criativos são utilizados pelo artista, ou seja, o espaço da subjetividade transformadora.

 
 
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