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Quatro buscas por quatro literaturas
4.06.2008 por admin

Oficinas literárias e a Criação em Prosa apresentou um debate instigante sobre duas perspectivas diferentes de atuação na coordenação de oficinas literárias, porém com algumas questões bastante vigorosas em comum.

João Silvério Trevisan e Raimundo Carrero falaram da paixão pela literatura e relataram suas já longas experiências do trabalho com pessoas que desejam produzir textos literários. Falaram de seus percursos de busca de um método. Trevisan relatou sua permanente testagem de exercícios, que o levam àquilo que ele chama de “pedagogia literária”. Carrero diz que a proposta de oficina permanente levou à necessidade de uma espécie de “didatismo”, traduzido em apostilas sobre as técnicas da narrativa.

Os métodos encontrados por eles parecem ter propósitos bastante diversos.

Trevisan fala de um processo que se apóia em três momentos: soltar-se, descobrir-se e aprimorar-se. Como se vê, é dada muita ênfase à “superação dos escudos de defesa”, pois “a escritura começa no corpo”. E neste contexto, a crítica tem papel de extrema relevância, pois atua como espelho. Assim, todos os participantes da oficina opinam sobre o texto do outro, de modo sistemático e sustentado por argumentações.

Para Trevisan escrever começa com um projeto, que pode se modificar ao longo do tempo. É uma idéia mínima do que se quer do texto e do que se quer como escritor. O projeto parece agir, segundo Trevisan, como uma tendência para o processo de criação. Não há 10 mandamentos para o bem escrever, mas a necessidade de descobrir os seus próprios mandamentos ou sua maneira de escrever. A oficina é um espaço para subversão de padrões pré-estabelecidos e para colocar a literatura produzida pelos participantes em crise. Tudo isso em um ambiente de “promiscuidade poética”. Ele leva esses mesmos princípios para as oficinas que acontecem na internet.

Carrero, por sua vez, enfatiza a importância da discussão das técnicas narrativas. Com este objetivo ele faz um estudo pormenorizado da estrutura da narrativa, a partir da leitura de textos da tradição literária. Assim, são discutidos os conceitos de cena, monólogo, fluxo da consciência, solilóquio, digressão, comentário.

Neste contexto, foi mencionada a importância da Poética, de Aristóteles e do livro Aspectos do romance, de E.M. Forster. Carrero é bastante passional, ao falar da necessidade de se compreender as escolhas feitas pelos escritores. Parece ser uma tentativa de conhecer os recursos de criação, ou seja, seus modos de produção. Ele se diz preocupado com uma espécie de consciência da linguagem, que diz respeito aos usos de, por exemplo, pronomes, adjetivos e, especialmente, tempos verbais. Em uma perspectiva mais geral, a literatura para ele se dá na inter-relação entre impulso, intuição, técnica e pulsação.

Este trabalho com oficinas deu origem a seu livro Os segredos da ficção. Ao mesmo tempo, ele faz publicações anuais de uma antologia com textos produzidos na oficina.

João Carrascoza e Marcelino Freire falaram de suas participações nas oficinas de Trevisan e Carrero, respectivamente.

Carrascoza, que fez a primeira oficina de Trevisan, diz ter sido uma experiência fundamental, como catalisadora de uma série de elementos na busca por sua voz literária. Além de “aprender” a importância da disciplina, que o leva a escrever diariamente, diz sentir gratidão em relação à generosidade de Trevisan, ao arrancar o potencial de quem faz suas oficinas.

Marcelino Freire lembrou-se do impacto que teve ao se inserir na tradição da literatura pelas mãos de Carrero, ao ler Graciliano Ramos e Julio Cortazar, entre outros. Encontrou interlocução com escritores que buscam textos enxutos, como aqueles que ele vinha produzindo e que, até ali, lhe pareciam improváveis. Outra marca dos tempos de oficina é a necessidade de fugir de lugares-comuns.

 
 
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