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Processo de criação como redes em construção


ato comunicativo

É a tendência do processo em seu aspecto social. O processo de criação mostra-se, também, como uma tendência para o outro. A obra em construção carrega as marcas singulares do princípios direcionadores ou projeto poético que a direciona, mas faz parte também de complexas redes culturais. O projeto de cada artista insere-se na frisa do tempo da arte, da ciência e da sociedade, em geral. É o diálogo de uma obra com a tradição, com o presente e com o futuro. O aspecto comunicativo do processo de criação envolve não só relações culturais, mas também uma grande diversidade de diálogos de natureza inter e intrapessoais: do artista com ele mesmo, com a obra em processo, com futuros receptores, com a crítica etc.

espaços de criação

O artista, interagindo com as redes culturais, está inserido em seu espaço geográfico e social, com restrições e possibilidade de deslocamentos. Os escritórios, ateliês, salas de ensaio ou estúdios são espaços da ação do artista, que abrigam trabalho físico e mental e guardam um potencial de criação, à medida que oferece possibilidade de armazenamento de objetos, livros, CDS, DVDS, instrumentos etc. Considerando-se este espaço para além dos limites físicos, envolve a memória e o imaginário do artista, assim como seu corpo gravado com toda sua história e suas buscas. Este espaço indicia os gestos do artista, torna-se guardião da coleta cultural e resguarda o tempo de operação poética ao longo do qual os objetos artísticos tomam forma. Os “escritórios” transformam-se, ao longo do tempo, de acordo com o desejo e a necessidade do artista. O tempo da criação, no entanto, vai além deste espaço físico, pois o artista o leva consigo em suas caminhadas, visitas a museus etc., com o auxílio de cadernos de anotações, máquina fotográfica, filmadoras etc.

inacabamento

Conceito de inacabamento é intrínseco ao conceito de processo contínuo ou a perspectiva processual que olha para todos os objetos de nosso interesse - seja um romance, uma peça publicitária, uma escultura, um artigo científico ou jornalístico – como uma possível versão daquilo que pode vir a ser ainda modificado. Relativiza-se a noção de conclusão. Qualquer momento do processo é simultaneamente gerado e gerador. Os ditos “pontos iniciais e finais” das obras são em rede, ou seja, referem-se a diferentes momentos interconectados.

interconexões

O processo de criação acontece no campo relacional ou das interconexões: toda ação está relacionada a outras ações de igual relevância. É um percurso não linear e sem hierarquias.

A interatividade como motor do desenvolvimento do pensamento é observada em níveis diversos: relação entre indivíduos, diálogo com a história da arte e da ciência e nas redes culturais. A criação alimenta-se e troca informações com seu entorno, que sofrem um processo de transformação. As interações são responsáveis pela proliferação de novas possibilidades: idéias se expandem, percepções são exploradas, acasos e erros geram novas possibilidades de obras etc.

Defrontar-se com essas possibilidades envolve estabelecimento de critérios de escolhas respaldadas por princípios direcionadores do processo (o projeto poético do artista), que nos levam a conhecer o que o artista busca em sua obra em construção.

matéria-prima

Matéria-prima é a substância principal de que se utiliza o artista no fabrico de alguma coisa, ou seja, aquilo de que é feita a obra, que é manipulado durante o processo. O termo não é utilizado em oposição ao virtual, pois aquele que trabalha com os meios digitais também se vê diante da necessidade de manipular a potencialidade de softwares, por exemplo, ou até perceber que precisa criar ou que sejam criados para ele novos programas para que consiga construir sua obra. Estamos no campo da língua para o escritor, o poeta, o jornalista, o dramaturgo etc.; tintas do pintor, cobre da matriz de gravuras, corpo do bailarino e do ator, voz do cantor e do ator, etc. Algumas manifestações artísticas lidam com mais de uma matéria, como o ator. Há também matérias híbridas utilizadas de passagem para outra como, por exemplo, a palavra do roteiro de cinema ou vídeo que é uma palavra visual.

memória

Memória é ação, ou seja, essencialmente plástica, não é um lugar onde as lembranças se fixam e se acumulam. As redes de associações, responsáveis pelas lembranças, sofrem modificações ao longo da vida. O tempo passa e assim altera-se a percepção que se tem do passado, alterando as lembranças. Cada nova impressão impõe modificações ao sistema. Memória, com espaço de liberdade, é seletiva. São feitas escolhas livres, porém não arbitrárias. As percepções interagem com a experiência passada, portanto, percepção não é divorciada da memória: não há percepção que não seja impregnada de lembranças. As sensações têm papel amplificador, permitindo que certas percepções fiquem na memória. Não há lembrança sem imaginação e a lembrança a serviço da criação pode ser explicada como uma espécie de memória especializada.

nós de interação

Os picos ou nós da rede são elementos de interação ligados entre si. Os nós, neste contexto, correspondem às questões que sustentam o processo de criação de um artista específico. São recorrências em seu modo de ação que nos levam aos procedimentos de criação e à compreensão do desenvolvimento do pensamento daquele artista em criação, que podem dizer respeito, por exemplo, aos modos de pensar a arte, modos de percepção ou modos de lidar com a sua matéria-prima, expressos nas escolhas de determinados recursos técnicos.

percepção

A percepção artística, como atividade criadora da mente humana, é uma ação transformadora. O filtro perceptivo vai processando o mundo em nome da criação. Em uma coleta sensível e seletiva, o artista recolhe aquilo que, sob algum aspecto, o atrai. Há renitências de seu olhar. São seus modos de se apropriar do mundo. Essa sensação é intensa, mas fugaz e, muitas vezes, responsável pela construção de imagens geradoras de descobertas. A construção de mundos ficcionais é decorrente de estimulação interna e externa recebidas através de lentes originais. As percepções interagem com a experiência passada, portanto, percepção não é divorciada da memória: não há percepção que não seja impregnada de lembranças. As sensações têm papel amplificador, permitindo que certas percepções fiquem na memória.

princípios direcionadores

As tendências do percurso podem ser observadas como atratores, que funcionam como uma espécie de campo gravitacional e que indicam a possibilidade que determinados eventos ocorram. Nesse espaço de tendências vagas está o projeto poético do artista que são princípios direcionadores, de natureza ética e estética, presentes nas práticas criadoras, relacionados à produção de uma obra específica e que atam a obra daquele criador, como um todo. São princípios relativos à singularidade do artista. São planos de valores, formas de representar o mundo, gostos e crenças que regem o seu modo de ação: um projeto pessoal e singular. Esse projeto está inserido no espaço e tempo da criação que inevitavelmente afetam o artista. A busca, como processo contínuo, é sempre incompleta. O próprio projeto que direciona, de algum modo, a produção das obras pode mudar ao longo do tempo.

processo contínuo

Tomando a continuidade do processo e o inacabamento que lhe é inerente, há sempre uma diferença entre aquilo que se concretiza e o projeto que está por ser realizado. Onde há qualquer possibilidade de variação contínua, a precisão absoluta é impossível. Não é possível falar do encontro de obras ideais e perfeitas. O que move essa busca são tendências do processo e a ilusão do encontro da obra que satisfaça plenamente.

 
 
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