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Um percurso de buscas, pesquisas, experimentações e encontros
9.06.2008 por admin

Uma lousa, um piano e mais um público boquiaberto. Este foi o cenário do espetáculo-oficina “Além de 12 sons”, de Arrigo Barnabé. O músico falou de sua trajetória, do começo no conservatório, dos estudos solitários, da falta de prática formal e das dificuldades do tempo de estudante na USP. Arrigo admite que quase não assistia às aulas, preferia ficar imerso em uma sala sozinho com um piano, exercitando a composição.

“As idéias surgem, eu transformo as idéias, daí surgem outras coisas. As associações vão sempre aparecendo. Eu queria ter alguém do meu lado para anotar o que acontece. Eu vou inventando enquanto eu vou fazendo, não tem nada pré-concebido”, diz Arrigo. Falando assim até parece fácil. Arrigo diz que encheu cadernos e cadernos com tentativas de composições que não vingaram. Nada parecia funcionar e isso era bom de certa maneira, explica.

Havia uma paixão por certos intervalos musicais, enquanto Arrigo buscava uma identidade musical. Ele também fala do seu interesse desde cedo pela qualidade estética das dissonâncias e das sonoridades politonais de Stranvinski e Bartók. A sobreposição de tonalidades provocava uma espécie de catarse, uma identificação brutal, segundo ele.

Em tempos de ditadura, quando a beleza e o censo estético eram confirmados de cima para baixo, Arrigo rejeitava o “bom gosto dominante e falso”. Ele preferia a transgressão e todos os sons aparentemente disformes e “não-melódicos” faziam parte de suas intenções.

A parceria com o amigo Mário Lúcio Cortês teve início quando os dois, em 1971, começaram a tentar transpor para o violão as “Invenções a Duas Vozes”, de Bach. Ele conta que descobriu mais tarde, que Bach havia composto essas peças para dar aula de composição. No final desse ano, o ainda estudante de arquitetura Arrigo e seu parceiro começaram a compor algumas linhas de baixo. Segundo ele, a música deveria ser tocada por uma banda de rock, mas mantendo um caráter erudito e contrapontístico, onde cada linha deveria ser independente uma da outra. Escolheram o compasso 7/4 (sete por quatro), os ritmos e as alturas.

“Tudo era muito complicado. Música exige muito conhecimento técnico. Mais referências juntavam-se ao processo de criação: o prazer pela transgressão; o contato com a “Obra aberta” de Umberto Eco; a possibilidade de trabalhar com módulos, vinda do breve período que estudou arquitetura na FAU-USP; a solicitação do leitor (público) de Baudelaire; e o uso das técnicas composicionais de inversão, e a retrogradação de tema musicais.

Arrigo e Mário tocavam no piano, cada um fazia uma mão, e todo o processo demorava muito.Quando os ritmos não agradavam, experimentavam alternativas até alcançar um choque entre notas que provocava a “estranheza” que buscavam. Mais cadernos, mais piano a 4 mãos. Uma “levada” foi inserida. Conseguiram compor “módulos” que funcionavam juntos, mas também separadamente. Em 1972, trabalharam em mais dois módulos.

Neste momento, Arrigo ainda desconhecia as técnicas dodecafônicas. Eles seguiram com a composição: inseriram acordes em cima de frases, nada era muito melódico, compuseram outro módulo e Arrigo começou a pensar em um texto para acompanhar a música. Segundo ele, 3 desses módulos eram para conversar com o público: “O monstro solto é a música”.

Depois de muito trabalho composicional, Arrigo e Mário decidiram montar uma banda para experimentar os módulos. Por ter dificuldade de acompanhar os módulos, o guitarrista começou a marcar os tempos da música com acordes. Dessa marcação surgiu um novo módulo, sobre o qual Arrigo começou a improvisar e a narrar uma história. Nasceu assim sua personagem “repórter-policial”, indo entrevistar o “inimigo público número 1”: Clara Crocodilo.

Em 1976, veio o encanto com o dodecafonismo de Schoenberg. Arrigo começa a trabalhar com séries, aproveitando-se dessa “democracia” das notas, proporcionada pela falta de hierarquia no uso dos 12 sons musicais. O compositor iniciou outra busca: compor uma série que tivesse um ritmo brasileiro. Uma série, com seu retrógrado, e um elemento de transição, assim veio “Infortúnio”.

As críticas começaram a chegar: “faz o povo cantar, Arrigo”. O compositor admite que não havia nada muito cantável, nem melódico. Mas com esse desafio de colocar a música na boca do povo, Arrigo começou a compor uma música para Londrina, sua cidade natal. Juntou séries e módulos, vieram as lembranças de um quadro de sua casa, e Arrigo construía lógicas musicais com notas e acordes. Sem seguir nenhuma regra de composição de valsa, Arrigo compôs “Londrina”, canção que ganhou melhor arranjo no Festival MPB Shell.

Depois de relatar todos esses percursos de suas composições e demonstrar a ordenação de suas notas, Arrigo deixa no ar a complexidade de suas músicas. O “Veterano da amargura”, o “Astronauta perdido” admite: “O meu ouvinte é um curioso, mais que qualquer coisa, ele é um curioso”.

 
 
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