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O que é a crítica de processo?
13.06.2008 por admin

A crítica genética sob a perspectiva da semiótica de linha peirceana tem uma pequena história de quinze anos, com alguns eventos marcantes e desenvolvimento intenso, que gerou muitas alterações.

Seguindo sua vocação de berço, essas pesquisas se iniciaram no campo da literatura, mais precisamente, literatura brasileira contemporânea. Os manuscritos de Ignácio de Loyola Brandão, para seu livro Não Verás País Nenhum, foram entregues a mim sem restrições: com muita confiança e cumplicidade.

Recebi um diário geral, um diário de trabalho, anotações verbais e visuais meticulosamente numeradas, rascunhos, fotos que o escritor colocou em seu escritório na época da produção do livro, recortes de jornais, que alimentaram as pesquisas, registros das dezenas de músicas ouvidas ao longo do processo e mapas da cidade em criação. Enfim, tratava-se de um dossiê bastante complexo e rico no que diz respeito a linguagens.

O material que tinha em mãos, em sua inter-relação de linguagens, levou-me a uma teoria que lidasse com esses diferentes modos de expressão, a partir de princípios teóricos comuns. Tratava-se de uma busca por teorias mais gerais que possibilitassem interpretar aqueles manuscritos literários repletos de imagens e anotações verbais sobre música.

Esta primeira pesquisa provou-se, ao longo do tempo, ter iluminado aspectos interessantes do processo criador de Ignácio de Loyola Brandão, mostrando a adequação da teoria escolhida ao objeto da crítica genética.

Assim os manuscritos com diferentes linguagens passaram a se forçar sobre mim, exigindo reconhecimento. Tratava-se, agora, da interdisciplinaridade em outro nível: não mais na relação de linguagens que o manuscrito de um escritor abrigava, mas de pesquisadores de diferentes manifestações artísticas buscando compreender o processo de criação, como os críticos genéticos faziam com os manuscritos literários.

Havia uma necessidade de dilatação dos conceitos da crítica genética.

Avancemos um pouco mais em nossa discussão semiótica sobre criação. O signo é uma representação: nunca temos acesso direto à realidade, este acesso é sempre resultado da mediação pela qual o signo é responsável.

Ao aproximar o conceito de mediação sígnica à definição do fictício, o ato criador é um processo de construção de uma representação, a partir de determinadas características que o artista vai lhe oferecendo, ao longo do percurso de acordo com certos princípios direcionadores de natureza estética e ética – ou seja, de acordo com seu projeto poético.

Esta representação em construção é permanentemente vivenciada e julgada pelo artista, assim como será vivenciada e julgada, no futuro, por seus receptores.

Nesse ambiente teórico podemos falar, sob o ponto de vista do artista, que os documentos de processo preservam uma estética em criação, que surge para o crítico como a estética do movimento criador. Discutir o processo de criação com o auxílio da semiótica peirceana é falar da estética do inacabado.

Com o apoio de Colapietro (1989), acredito que a teoria semiótica de Peirce manifestou seu valor para a Crítica de Processo em oferecer a possibilidade de abrir o caminho para a investigação sobre o processo criador e, a partir do momento em que este caminho foi aberto, ofereceu assistência para cultivo desta área do conhecimento. Resta-nos estudar o papel desempenhado por cada um desses documentos do processo de criação, que são o alvo de nossas pesquisas.

(por Cecília Salles)

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