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Curadoria: propostas de aglutinação e reflexão
2.06.2008 por admin

Na mesa, as propostas amplas e diversas de dois firmes e intensos profissionais e estudiosos da arte. Lisette Lagnado e Rubens Fernandes Jr. enriquecem as tantas verdades e a “teoria na prática” de ser um curador, através de relatos e pontos de vista de seus processos de criação ao organizar exposições. Neste segundo painel de “Redes da Criação”, Crítica e Curadoria, mediado por Cecília Salles, os curadores apresentaram as possibilidades e as suas referências de pesquisa para compor um projeto de curadoria.

O convite de Arnaldo Pappalardo para criar um projeto de curadoria veio para Rubens Fernandes, pesquisador e crítico de fotografia, em 2005: “Fotografia é muito solitário, eu preciso de ajuda” (Pappalardo). A proposta inicial era montar uma retrospectiva de trinta anos de atividades do fotógrafo, com uma visão atual e com obras que mostrassem a diversidade de temas, enfoques, suportes e tamanhos de suas fotografias. E mais, esse inventário do trabalho de Pappalardo deveria estar em uma rede bastante imbricada e interligada, com nós referenciais e relacionais entre as diversidades das fotografias.

A curadoria mudou de tom e de intenções muitas vezes, por motivos diversos. Porém, o mais marcante foram as contínuas variações relativas à escolha do espaço onde a exposição irá acontecer. O processo criativo, segundo Rubens, é um caminho tortuoso e sempre difícil, mas muito enriquecedor. Todas essas mudanças aguçaram seu olhar sobre as referências e o modo de fotografar de Pappalardo, entendendo profundamente as sutilezas e a linguagem do fotógrafo.

Rubens acompanhou, muito de perto, a criação de Pappalardo, com suas pausas, testes, ensaios, mudanças de olhar, de temas, de referências e de buscas. O percurso do fotógrafo ficou todo registrado nas anotações do curador. A exposição de Pappalardo finalmente será realizada, em agosto deste ano, na Pinacoteca do Estado.

A habilidade de se metamorfosear é uma das grandes qualidades para o curador, segundo Lisette Lagnado. E para ser capaz de se readequar a tantos universos artísticos, ela ressalta a essencialidade da Filosofia, tanto quanto do estudo da História da arte. Lisette compara a atividade do curador com a de um jornalista, que elabora as matérias de capa. “E quando a capa cai”, o jornalista começa tudo de novo e reconfigura o trabalho. Assim também ocorre no processo de criação e elaboração de uma curadoria, há imprevistos, mudanças nos modos de ver. E o curador busca novas propostas de articulação.

“Fazer curadoria não é um ‘tudo cabe’ aleatório. Não deve ser um pout-pourri de obras, sem articulação” (Lagnado). A simples junção de obras por critério cronológico, por exemplo, é insuficiente, para configurar uma curadoria, segundo Lisette. Para ela, o desafio do curador está em exatamente, através da interlocução íntima com o artista, criar possibilidades artísticas de conjugação e relação entre obras, pensando além do óbvio em dispositivos agregadores de camadas de significações. Ela acredita que cada curador constrói seus filtros para selecionar as obras e que esses filtros devem ser profundos o suficiente para criar estratégias de abordagem, estabelecer critérios e configurar uma reflexão curatorial.

Lisette observa que no processo de criação do projeto curatorial o artista geralmente tem uma intenção a priori, assim como, o curador. Essas intenções formam um processo colaborativo de criação das propostas curatoriais de organização conceitual da exposição. Segundo ela, artista e curador “con-correm”, ou seja, correm juntos neste processo e a troca de conjugações provenientes de fontes tão diferentes é fundamental para a construção da curadoria, na qual o curador é um mediador do artista e das relações propostas entre as obras. Lisette ressaltou também a rede que envolve o processo curatorial: instituição, artista, expografia, edição gráfica, educadores, monitores etc.

Cecília Salles observa que nos dois processos descritos no painel, há interconexões nos princípios direcionadores dos curadores, “planos de valores” em comum na criação do projeto curatorial: a presença do curador e seu olhar externo às obras são sempre “motivadores para o artista”, podendo pulsar novas idéias, novas relações, novos caminhos. Pode-se pensar que o processo todo de criação de uma curadoria envolve dois processos indissociáveis: o do curador e o do artista, retroalimentado-se e referenciado-se mutuamente.

 
 
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